Chainsaw Man acabou. Agora dá pra falar da obra inteira

Em 25 de março de 2026, Tatsuki Fujimoto publicou o capítulo 232 e encerrou Chainsaw Man depois de oito anos. O título do capítulo final dizia tudo: "Thank You, Chainsaw Man". O último volume chegou às prateleiras japonesas em 4 de junho. Quatro dias atrás, no momento em que escrevo isto.
Isso muda como a gente conversa sobre a obra. Durante anos, falar de Chainsaw Man era falar de um cliffhanger em aberto, de teoria de fórum, de "será que tem Parte 3". Acabou essa ansiedade. A história está fechada, com começo, meio e um fim que dividiu a internet ao meio.
Então este guia não é sobre o que vem por aí. É sobre a obra que ficou pronta. Quem é o cara que a desenhou, por que as capas têm tanta carne exposta, e o que faz esse mangá continuar diferente de quase tudo que o shonen produziu na última década.
⚠️ Aviso de spoiler. Esse post pode conter spoilers a partir deste ponto. Siga com cautela.
A premissa, pra quem precisa de um empurrão
Denji é um adolescente pobre que herdou a dívida do pai com a yakuza. Ele caça demônios pra pagar essa conta, acompanhado de Pochita, um demônio-motosserra com cara de cachorrinho. Quando a yakuza o trai e o mata, Pochita faz um pacto: vira o coração de Denji e o devolve à vida como Chainsaw Man, capaz de transformar partes do corpo em motosserras.
A partir daí, Denji não quer salvar o mundo. Ele quer pão com geleia, um teto e, no nível mais básico possível, encostar num seio. Esse é o motor da história. Fujimoto pegou a estrutura clássica do herói shonen e trocou o "quero ser o melhor" por "quero comer bem e não morrer".
A graça é que essa pegada terrena convive com uma das mitologias mais estranhas do gênero. Demônios nascem do medo coletivo. O Demônio da Arma existe porque humanos temem armas. O Demônio do Futuro mora dentro de um braço. Quanto mais a humanidade teme algo, mais forte é o demônio correspondente. É uma engrenagem simples que abre espaço pra ideias absurdas, e Fujimoto explora cada uma sem pedir licença.
Tatsuki Fujimoto, o diretor de cinema que desistiu na metade do caminho
Fujimoto nasceu em 10 de outubro de 1992, em Nikaho, uma cidade rural da província de Akita. Interior do interior, longe dos polos criativos do Japão. Ele cresceu querendo ser diretor de cinema, não mangaká, e essa origem explica metade da obra dele.

Sobre como começou no desenho, tem uma história que virou lenda. Sem cursinho de arte perto de casa, ele frequentou uma aula com vários senhores que pintavam a óleo. Decidiu que, se não ficasse melhor que eles em quatro anos, os mataria. Como não queria virar foragido caso melhorasse, simplesmente continuou desenhando. A frase é dele, e resume o humor seco que atravessa tudo que ele faz.
Formado em Belas Artes pela Universidade de Arte e Design de Tohoku, Fujimoto carrega o cinema pra dentro do quadrinho de um jeito quase obsessivo. Tarantino, Bong Joon-ho, Satoshi Kon e Hideaki Anno aparecem nas influências que ele mesmo cita. A estrutura narrativa, os cortes bruscos de tom, a forma de enquadrar uma cena: tudo carrega DNA de filme.
Antes de Chainsaw Man veio Fire Punch, sua primeira serialização, mais sombria e bem mais difícil de engolir. Depois da Parte 1, ele soltou Look Back e Goodbye, Eri, duas one-shots que muita gente considera o ápice técnico da carreira dele. Look Back ganhou adaptação animada e até uma versão live-action dirigida por Hirokazu Kore-eda, um dos nomes mais respeitados do cinema japonês contemporâneo.
Vale guardar um detalhe pra rodas de conversa. Vários assistentes que passaram pela mesa de Fujimoto viraram autores de peso. Yukinobu Tatsu, de Dandadan, e Yuuji Kaku, de Hell's Paradise, aprenderam o ofício ali. O estilo dele influenciou tanta gente nova que ganhou apelido no Japão: "doença Tatsuki", o vício de jovens mangakás em imitar o traço riscado e a antinarrativa do mestre.
Por que sempre tem gente sem roupa nas capas de Chainsaw Man
Essa é a pergunta que todo mundo faz e quase ninguém responde direito. A resposta curta: não é fan service gratuito. É linguagem.
Chainsaw Man é uma obra sobre corpos. Corpos que viram motosserra, que sangram, que se desfazem e se remendam. A carne está no centro temático, não na margem. Quando Fujimoto desenha alguém nu ou mutilado numa capa, ele está falando de vulnerabilidade, de desejo e de horror no mesmo gesto. O traço cru e riscado da Parte 2 leva isso ao limite, com anatomias deformadas que parecem prestes a se dissolver na página.
A crítica especializada já apontou isso de forma direta. Em análises sobre o filme do Arco da Reze, jornalistas notaram que a sexualidade da obra nasce de uma abordagem mais realista de personagem e de mundo, o que a torna inseparável do tipo de história que Fujimoto quer contar. A nudez de Chainsaw Man, por padrão de anime, costuma ser bem mais comedida do que a fama sugere.

Chainsaw man Vol. 1
Panini | 192 páginas

Tem ainda a camada cinéfila. Fujimoto enche a obra de referências a filmes, e as capas entram nessa brincadeira de estética. Fãs transformaram a caça a essas referências num esporte, do Massacre da Serra Elétrica a Pulp Fiction, passando por coisas tão improváveis quanto Sharknado, que ele já assumiu amar. Boa parte do imaginário visual de corpo e violência que aparece nas capas conversa com o cinema de horror dos anos 1970 e 1980.
E as capas guardam segredo. No volume 14, Fujimoto desenhou a personagem Fami diante de um vitral, detalhe que fãs leram depois como pista da identidade real dela. As capas dele não são só pôster bonito. Funcionam como peça narrativa, escondendo informação que só faz sentido capítulos adiante.
Parte 1 e Parte 2 são quase dois mangás diferentes
A Parte 1, chamada Saga da Segurança Pública, rodou na Weekly Shonen Jump de 2018 a 2020. São 97 capítulos e 11 volumes de ação suja, demônios assustadores e um elenco que o público abraçou rápido: Denji, Power, Aki, Makima. É a fase mais redonda e a mais fácil de recomendar pra alguém de fora.
Já a Parte 2, Saga da Academia, mudou de casa e de energia. Migrou pra plataforma digital Jump+ em 2022 e durou até março de 2026, fechando em 232 capítulos no total. O foco virou pra vida escolar de uma nova protagonista, Asa Mitaka, num tom mais melancólico e bem mais experimental no traço. Quem entrou esperando a pancadaria da Parte 1 estranhou. Quem topou a guinada encontrou algo mais inquieto e autoral.
No Brasil, quem publica o mangá é a Panini, sob o selo Planet Mangá. A obra fecha em 24 volumes no Japão, e por aqui a coleção está no volume 23, segundo o site da editora. Falta pouco pra completar. Cuidado com anúncios de edições de outras editoras em sebos e marketplaces, porque a oficial é a Panini.
O núcleo que sustenta tudo
Denji

O protagonista que recusa ser herói. Denji só quer comer bem, dormir num teto e ser desejado por alguém. Fujimoto usa essa fome simples pra desmontar a fantasia shonen do garoto que sonha em salvar o mundo. Ele é grosseiro, impulsivo e estranhamente comovente. Quanto mais a história avança, mais essa carência vira o centro emocional de tudo.
Pochita

O demônio-motosserra com cara de cachorro que dá nome à série. Pochita começa como bicho de estimação e companheiro, mas carrega um peso muito maior do que o tamanho fofo sugere. A relação dele com Denji é a espinha dorsal afetiva da obra. Guarde o nome, porque o capítulo final faz questão de lembrar quem sempre esteve ali.
Power

A favorita declarada de meio fandom, e dá pra entender. Power é uma Fiend do Sangue: mentirosa, egoísta, barulhenta e absurdamente carismática. Fujimoto já contou que baseou a personalidade dela no Cartman de South Park, e a piada se sustenta em cada cena. Por trás da bagunça, ela rende alguns dos momentos mais sentidos da Parte 1.
Aki Hayakawa

O contraponto sério do trio. Aki é o caçador de demônios veterano que acolhe Denji e Power a contragosto, movido por uma vingança pessoal. A convivência forçada dos três vira uma espécie de família torta, e é justamente aí que a Parte 1 fisga o leitor. Aki carrega o peso adulto que Denji ainda não entende.
Makima

A peça que faz a engrenagem girar. Makima é a superior de Denji na Segurança Pública, calma, controladora e impossível de ler. Ela orienta o garoto com uma gentileza que nunca parece totalmente sincera. Fujimoto construiu nela uma das figuras mais magnéticas do mangá moderno, do tipo que você admira e teme na mesma página. Quem assistiu ao anime sabe que cada sorriso dela esconde uma intenção a mais.
Reze

O furacão que entra e revira tudo. Reze aparece num arco curto e devastador, oferecendo a Denji exatamente o que ele mais quer: afeto sem cobrança. A relação dos dois é doce e ameaçadora ao mesmo tempo. Não à toa, o arco dela virou o primeiro filme da franquia e conquistou até quem não acompanhava a obra.
O elenco não para por aí. Kishibe, Quanxi, Asa Mitaka e uma legião de demônios passam pela história deixando marca. Dá pra explorar cada um na nossa central de personagens de Chainsaw Man no AnimeLoud.
Curiosidades pra você dominar a roda de conversa
Power de Chainsaw Man foi inspirada no Cartman
Fujimoto já contou que baseou a personalidade da Power, com a lábia e o egoísmo encantador, no Eric Cartman de South Park. Faz sentido demais quando você relê as cenas dela mentindo na cara dura.
Ele inventou uma "irmã" no Twitter
Por anos, Fujimoto manteve sua conta no Twitter no personagem de uma irmã mais nova fictícia, Koharu Nagayama, supostamente uma menina do terceiro ano do fundamental. Ele postava no papel dela e saía da persona em momentos pontuais, como pra agradecer aos assistentes. Em 2022, a conta chegou a ser derrubada pela plataforma por causa da idade declarada no perfil, e voltou poucos dias depois. É o tipo de jogo entre ficção e realidade que combina demais com a obra dele.
O final irritou muita gente
O capítulo 232 dividiu a base. Parte dos fãs leu o desfecho como apressado, como se Fujimoto tivesse pulado direto pro final planejado no meio de um arco. Outros defenderam que essa recusa ao clímax shonen tradicional é justamente a assinatura dele. A discussão tomou o Reddit por dias.
O coletânea de juventude virou anime
As one-shots que Fujimoto desenhou antes de Chainsaw Man, entre os 17 e os 26 anos, foram reunidas e adaptadas numa antologia animada, lançada no Prime Video em 2025. É um prato cheio pra entender a evolução do traço dele.
Sobre o final de Chainsaw Man
Vou dizer o que muito fã não quer ouvir: o final apressado de Chainsaw Man não é defeito, é coerência.
Fujimoto passou oito anos sabotando a expectativa de pagamento emocional que o shonen treina o leitor a esperar. Denji nunca virou o herói tradicional. A obra inteira recusa o arco de superação limpo. Então cobrar um desfecho grandioso, amarrado com laço, é pedir que ele traísse a própria tese no último capítulo.
O que parece preguiça pra uns é, na minha leitura, o gesto mais fiel possível. Ele terminou do jeito que viveu: anticlimático, terreno, meio triste, com Denji recebendo o que merece sem nem perceber. A internet queria fogos de artifício. Fujimoto entregou pão com geleia. Combina com tudo que veio antes.
Discordar é legítimo. Mas quem leu a obra como crítica ao próprio gênero dificilmente se surpreende com a forma como ela acaba.
Perguntas Frequentes
- Chainsaw Man acabou de vez ou vai ter Parte 3?
- Quantos capítulos e volumes tem o mangá?
- Qual editora publica Chainsaw Man no Brasil?
- Preciso ler o mangá se já vi o anime?
- Quem é Tatsuki Fujimoto?
- Por que Chainsaw Man tem tanta referência a filme?
- Chainsaw Man é indicado pra menores de idade?
- Qual a diferença entre a Parte 1 e a Parte 2?
- O que ler do Fujimoto depois de Chainsaw Man?
- Por que as capas dos volumes têm gente nua ou mutilada?
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