
A história dos estúdios, das vozes e das liberdades criativas que transformaram animações japonesas em memória afetiva brasileira
Durante os anos 1990, o Brasil recebia animes no fim de uma longa cadeia de intermediários, traduzidos do espanhol, cortados pelos americanos, cheios de erros acumulados. O que chegava aqui era fragmentado. O que saía dos estúdios de dublagem era outra coisa: urgente, cômico, profundamente nacional. Este acervo reconstitui como isso aconteceu e por que sobreviveu.

Antes de chegar ao microfone de um dublador em São Paulo ou no Rio, um anime japonês percorria um caminho longo. Os estúdios americanos (sobretudo a 4Kids Entertainment e a Saban) recebiam os masters, cortavam o que julgavam inadequado para o público infantil norte-americano e exportavam o produto modificado para a América Latina. Distribuidoras espanholas, como a Samtoy, faziam sua própria camada de adaptações. O Brasil ficava no fim dessa cadeia.
O resultado era um produto com erros acumulados de três culturas diferentes. Os estúdios brasileiros raramente recebiam roteiros traduzidos direto do japonês. Trabalhavam com o que chegava, às vezes em espanhol, às vezes sem roteiro nenhum, com dubladores precisando preencher o silêncio visual na base do improviso.
Desse processo caótico saíram algumas das localizações mais inventivas que a televisão brasileira já produziu. A escassez virou método. A improvisação virou estilo.
De São Paulo ao Rio, a infraestrutura que sustentou décadas de animes no Brasil foi construída em fases, cada uma respondendo ao mercado que existia naquele momento.
A GravaSon (São Paulo, 1957), a Herbert Richers, a ZIV (Rio de Janeiro, 1958) e a CineCastro (1959) estabeleceram a base tecnológica da dublagem brasileira. A CineCastro seria a pioneira na introdução de animações japonesas no Brasil, trazendo Speed Racer e os primeiros tokusatsus.
A expansão do mercado de videocassete criou demanda suficiente para sustentar novos estúdios: Maga (1982), VTI (1984), Delart (1985), Sincrovídeo (1987), Marshmallow (1989). A dublagem deixou de ser monopólio de dois polos e se tornou mercado competitivo.
Fundada entre 1993 e 1994, a Gota Mágica assumiu a dublagem de Os Cavaleiros do Zodíaco sob direção de Gilberto Baroli. O anime estreou na TV Manchete em setembro de 1994 e alcançou 15 pontos de Ibope, definindo o modelo de localização que a televisão brasileira usaria por uma década.
Em 1994, Marco Ribeiro fundou a Audio News no Rio de Janeiro. O estúdio ganhou destaque nacional quando a Tikara Filmes mandou Yu Yu Hakusho para o Rio em 1997, em parte porque a Gota Mágica atravessava dificuldades. A Audio News entregou a dublagem mais brasileira da história do anime.
Com o fechamento da Gota Mágica e a retomada dos direitos pela Toei Animation, a franquia Cavaleiros do Zodíaco migrou para a Álamo. Sob tradução direta do japonês por Arnaldo Oka e adaptação do jornalista Marcelo Del Greco, a redublagem corrigiu nomes errados, restaurou a mitologia nipônica e substituiu gritos genéricos por diálogos fiéis ao mangá.
A Dubrasil (fundada por Hermes Baroli, 2003/2004) e a UniDub (estruturada por Wendel Bezerra, 2019) representam o amadurecimento do setor: dubladores que se tornaram empresários, moldando a indústria às exigências técnicas e editoriais das plataformas de streaming.

Yusuke Urameshi é, no original japonês, um furyo, o estudante rebelde que desafia a hierarquia escolar e briga com gangues. Traduzir esse arquétipo literalmente para o Brasil dos anos 1990 teria produzido algo apático ou excessivamente sério para o espectador nacional.
Marco Ribeiro, que dirigia e dublava o protagonista na Audio News, percebeu que o equivalente sociológico do furyo no Brasil não era o criminoso, era o malandro urbano carioca. Consultou Eduardo Miranda, da TV Manchete, pedindo liberdade para injetar gírias contemporâneas no texto. Miranda disse sim, com uma única restrição: sem palavrões.
O que saiu daí foi singular. "Tô na área, se derrubar é pênalti." "Dane-se o mundo, que eu não me chamo Raimundo." "Para o bonde que Isabel caiu." O Kuwabara de Peterson Adriano ganhou sotaque nordestino e bordões como "Rapadura é doce, mas num é mole não." Até Koenma, o regente do mundo espiritual, virou repositório de gírias anacrônicas.
Quase trinta anos depois, essas frases ainda circulam. Nenhuma delas existia no roteiro japonês.
"Eu não via o Yusuke Urameshi como paulista. Eu via como carioca. O malandro, o cara que quer dar porrada em todo mundo das gangues."
Verdade confirmada. Segundo a Dublapédia e fontes especializadas sobre a produção da Gota Mágica, o teste de Hermes Baroli foi tão convincente que ele tomou o papel de Seiya. Élcio Sodré, que havia sido cogitado para o protagonista, foi escalado para Shiryu de Dragão, papel que se tornou igualmente icônico.
Verdade, mas a culpa não foi dos estúdios brasileiros. A distribuidora Samtoy, responsável pelos direitos dos brinquedos da Bandai no Brasil, temia que a série fosse cancelada antes de o verdadeiro Cavaleiro de Ouro de Capricórnio aparecer no episódio 52. Para justificar os bonecos que já estavam nos depósitos, exigiu que Jabu de Unicórnio fosse renomeado "Jabu de Capricórnio" na dublagem.
Sim, pela 4Kids Entertainment, antes do material chegar ao Brasil. A distribuidora americana alterou digitalmente as cenas para exibição no mercado norte-americano, e o estúdio DPN Santos trabalhou com esse material modificado na dublagem de 2005. A correção só veio com a redublagem da UniDub a partir de 2019, baseada no roteiro original japonês.
Sim. O relacionamento romântico e físico das duas guerreiras foi reescrito pelas distribuidoras DiC e Cloverway antes de chegar ao Brasil. Os estúdios BKS e Gota Mágica acataram a determinação e as definiram como primas nas falas em português. O público via o comportamento afetivo na tela e ouvia a palavra "primas" no áudio, uma dissonância que nunca convenceu.
Antes do streaming transformar o “pular abertura” em hábito, a abertura de um anime funcionava como um verdadeiro contrato afetivo entre obra e espectador. No Brasil dos anos 1990, esse contrato ganhava uma camada extra: era traduzido, adaptado e cantado em português, muitas vezes por artistas que o público sequer sabia quem eram, mas cujas vozes acabariam marcadas na memória coletiva.
Casos como a versão brasileira de Pegasus Fantasy, interpretada por Edu Falaschi, ou as aberturas de Yu Yu Hakusho e Sailor Moon, mostram como havia um esforço criativo real em adaptar não só a letra, mas o espírito das obras para o público local. Esse tipo de localização musical praticamente desapareceu no modelo atual, onde o streaming privilegia as versões originais e não incentiva esse tipo de produção. O que antes era padrão virou exceção e, justamente por isso, ainda mais lembrado.
As vozes que definiram personagens e, em muitos casos, definiram também carreiras.
Goku (Dragon Ball Z/GT/Super): Álamo (anos 90/2000), Unidub (atualmente). Principal voz do personagem no Brasil.
Pain (Naruto Shippuden): CBS (2015). Direção de dublagem dele mesmo.
Sanji (One Piece): DPN Santos (2006). Dublagem da versão censurada da 4Kids.
Brook (One Piece): Unidub (2020). Versão integral da Netflix.
All Might (My Hero Academia): Dubbing Company (2020). Versão para Funimation.
Joseph Joestar (JoJo's Bizarre Adventure): Unidub (2021). Dublagem para Netflix.
Mewtwo (Pokémon: O Filme): Mastersound (2000). Voz clássica do primeiro filme.
Saga de Gêmeos / Kanon (Os Cavaleiros do Zodíaco): Gota Mágica (1994), Álamo (2003 - redublagem e Saga de Hades), Dubrasil (atualmente).
Dohko de Libra (Velho) (Os Cavaleiros do Zodíaco): Gota Mágica/Álamo.
Comandante Red (Dragon Ball): Álamo (2002). Dublagem da fase clássica.
Bulma (Dragon Ball/Z/GT/Super): Álamo (1999), Unidub (atualmente). Dublou quase todas as fases e filmes.
Chun-Li (Street Fighter II V): Master Sound (1996). Versão clássica exibida no SBT.
Kassandra (Bucky): Mastersound (2000). Anime exibido na Band.
Seiya de Pégaso (Os Cavaleiros do Zodíaco): Gota Mágica (1994), Álamo (2003), Dubrasil (atualmente).
Roy Mustang (Fullmetal Alchemist): Álamo (2005). Versão clássica e Brotherhood.
Joe Shimamura (Cyborg 009): Álamo (2002). Exibido no Cartoon Network.
Yusuke Urameshi (Yu Yu Hakusho): Audio News (1997 - Manchete / 2004 - Cartoon Network). Famoso pelas gírias adaptadas.
Iron Mask (Bucky): Mastersound (2000).
Rei Cold (Dragon Ball Z): Álamo (2001). Saga de Cell.
Naruto Uzumaki (Naruto/Shippuden): CBS (2007/2015). Dublou o protagonista em todas as fases jovens.
Goku (Criança) (Dragon Ball): Álamo (1999). Primeira fase do anime.
Luffy (One Piece): DPN Santos (2006). Versão da 4Kids (substituída por Carol Valença na versão integral).
Chichi (Dragon Ball Z/GT/Super): Álamo (2000). Assumiu a personagem após os primeiros episódios.
Ritsuko Akagi (Neon Genesis Evangelion): Mastersound (1999 - Locomotion), Vox Mundi (redublagem Netflix).
Tsunade (Naruto Shippuden): CBS (2015). A "Vovó Tsunade".
Sukuna (Jujutsu Kaisen): Som de Vera Cruz (2020). Papel que o consagrou na nova geração.
Escanor (The Seven Deadly Sins): Alcateia (2018). Dublagem para Netflix.
Falco Grice (Adulto/Titã) (Attack on Titan): Dubbing Company (2021).
Crocodile (One Piece): Unidub (2020). Redublagem da Netflix.
Yami Sukehiro (Black Clover): Som de Vera Cruz (2018). Dublagem para Crunchyroll/Netflix.
Keiji (Rooster Fighter): Etcetera Group (2024). Dublagem para o Adult Swim/Max.
Ash Ketchum (Pokémon): Mastersound/Centauro (1999-2015). Dublou o personagem por 18 temporadas.
Shinji Ikari (Evangelion): Mastersound (1999), Vox Mundi (2019).
Bakugo (My Hero Academia): Dubbing Company (2020). Filme e série.
Kurapika (Hunter x Hunter): Álamo (2005). Versão clássica.
Kenshin Himura (Samurai X): BKS (1997). Dublagem clássica da Globo/Cartoon.
Afrodite de Peixes (Os Cavaleiros do Zodíaco): Gota Mágica (1995), Álamo (2003).
Siegfried de Dubhe (Os Cavaleiros do Zodíaco): Gota Mágica (1995). Saga de Asgard.

A dublagem feminina de animes no Brasil foi construída por mulheres que muitas vezes carregavam mais de um personagem por série, dirigiam enquanto dublavam e raramente apareceram nos créditos com o mesmo destaque dos protagonistas masculinos. O resultado sonoro estava em todo lugar. O reconhecimento, nem sempre.
Miriam Ficher foi a Botan de Yu Yu Hakusho, a guia espiritual que aparecia toda vez que Yusuke precisava de orientação, e cuja voz leve contrastava com o tom malandro do protagonista com precisão cirúrgica. Ficher voltou ao papel décadas depois no live-action da Netflix, ao lado do mesmo elenco original. Faye Valentine em Cowboy Bebop, Konan em Naruto Shippuden: uma carreira que atravessou gêneros e gerações.
Selma Lopes deu voz à Mestra Genkai em Yu Yu Hakusho, a anciã brutalmente honesta que treinava Yusuke sem condescendência. A mesma voz que o Brasil conhecia como Marge Simpson e como Vovó Fa em Mulan. Letícia Quinto foi Atena em Os Cavaleiros do Zodíaco desde a primeira cena, e acumulou a direção artística na Álamo em paralelo ao trabalho em cabine. Marli Bortoletto foi Sailor Serena na Gota Mágica e emprestou a voz a pelo menos quatro personagens diferentes dentro da mesma série de Cavaleiros, incluindo crianças e figuras secundárias.
Nenhuma delas aparecia nos cartazes. Todas estão na memória de quem cresceu ouvindo.

A era do intermediário acabou. Os estúdios brasileiros contemporâneos operam em regime de simulcast, com acesso direto ao roteiro japonês e aprovação individual de elenco e localização pelos próprios executivos da obra. O "telefone sem fio" que produziu o "Coraçãozinho de Satã" e o "Jabu de Capricórnio" não existe mais.
O que tomou o lugar é mais preciso e mais restrito. Estúdios como a UniDub, que reiniciou One Piece do episódio 1 em 2019, trabalham com fidelidade ao texto original como premissa. A redublagem corretiva virou modelo de negócio, um reconhecimento público de que a primeira versão havia errado.
Mas a nostalgia criou um problema novo. Os fãs que cresceram ouvindo gírias cariocas querem encontrar esse calor nas dublagens atuais. Quando diretores contemporâneos tentam recriar a irreverência dos anos 1990 forçando referências de TikTok na boca dos personagens, o resultado costuma ser o oposto do pretendido. A diferença entre Yu Yu Hakusho e uma piada de meme em Jujutsu Kaisen é simples: o primeiro nasceu do personagem, o segundo nasceu da oportunidade.
As vozes que você ouviu quando criança não eram simplesmente tradução. Eram decisões artísticas tomadas em estúdios pequenos, com roteiros imperfeitos, por profissionais que entenderam (antes de qualquer análise acadêmica) que a cultura japonesa só chegaria ao Brasil de verdade se parasse de fingir que era americana.
Gilberto Baroli dirigindo Saga de Gêmeos enquanto também o dublava. Marco Ribeiro ligando para Eduardo Miranda para pedir permissão de usar "rapadura". Hermes Baroli passando o bastão 28 anos depois com uma mensagem no Twitter para o substituto. São momentos pequenos de uma indústria que nunca se levou a sério o suficiente para perceber que estava fazendo história.
A história foi feita assim mesmo.
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Data da Curadoria: 04 de maio de 2026